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Elba Ramalho lança o álbum “O Ouro do Pó da Estrada”

É lindo ouvir o 38° disco da carreira vitoriosa e a todo vapor de Elba Ramalho e ter vontade de levantar, pular, fazer alguma coisa importante imediatamente. Elba faz, sempre fez. Elba e sua energia renovada a cada manhã, tem um pé no sertão da sua terra e o outro no mundo. Se conhece a palavra “medo”, a ignora solenemente, a ponto de esvaziá-la de sentido. Até sarau na casa de Elba, vira Rock in Rio unplugged! Nunca vou esquecer daquela noite no Canecão, onde nem sonhava conhecê-la ou ainda chamá-la de minha amada amiga, quando aquela mulher entrou com uma galinha nos braços, numa ladainha danada, pelo meio das cadeiras e num passe de mágica se transformou na estrela Elba Ramalho, subiu no palco e botou pra quebrar com pernas e cordas vocais, de embasbacar até os mais viajados da Broadway.

Não é todo dia que seu descobridor se chama Chico Buarque. Foi no disco dele, em 1978, sua estreia fonográfica, retirada do antológico musical “A Ópera do Malandro”, na faixa “O Meu Amor”, dueto com Marieta Severo. No ano seguinte, seu primeiro e belo álbum, “Ave de Prata” estourava com outra canção do nobre padrinho, “Não Sonho Mais”. De lá pra cá, tudo é caminho e um rastro de garra e sucesso. Elba tem intimidade com a multidão, é “bicho de palco”, como se diz e seus registros de estúdio trazem essa semente, que frutifica no colo e nos ouvidos de seu imenso público.

Agora temos “O Ouro do Pó da Estrada”, que não me deixa mentir. Começando a ouvir e já sentindo a busca de Elba pelo desafio, o desafio de estar em cena há 40 anos e sempre em atitude de plena procura, sem perder de vista o que a identifica.

Já na abertura, de Yuri Queiroga e Manuca Bandini, Elba diz a que veio: “eu vou seguir você, até doer o calcanhar”. Esse “você” sou eu, vocês, a música, o sonho, a vida. Sem descanso. Tem uma pegada, um suingue, um peso, um rock n’ roll de manguebeat nesse sertão paraibano de Elba, nessa produção de Yuri Queiroga e Tostão Queiroga. Com direito a texto “na beira do mundo, querendo voar”, de Bráulio Tavares. Isso não é apenas uma abertura, é uma invasão das boas, abram as portas e os ouvidos, “O Ouro do Pó da Estrada” vai passar!

Com Ney Matogrosso, “Girassol da Caverna”, de outro grande dessa família, que atende pelo nome de Lula Queiroga, Elba, apoiada em seu Nordeste driveado, apresenta uma faixa que começa orquestral, suave e na qual melodias de flauta carregam a introdução, porém deságua numa força de arautos, Elba e Ney, mensageiros de um apocalipse irresistível. “Na Areia”, de Juliano Holanda, soa suave e confessional, como um balanço dos dias todos, com direito a cordas e sanfona de Marcelo Jeneci. “Oxente”, de Jeneci e Chico César, vem rasgando a pista, vestida de um forró arretado de gostoso, fala de ser inteiro nas metades, de procurar amigos e amor. E por falar nesse assunto, logo depois, a delícia se chama “Se Não Tiver Amor”. Aquele gênero musical onde Elba deita e rola, “Xotestrot”! Como um fox nordestino, anunciado por uma caixa, acordeon e triângulo, Elba diz quase rindo, “amor é nossa última chance”, quem é que pode duvidar? A doce composição é do até então ator, George Sauma, que se revela um autor espontâneo e livre.
Dando nome ao disco, “O Ouro do Pó Da Estrada”, de Lula e Yuri Queiroga, traz a Elba que sempre segue o apito do trem, que a levará a novas viagens. Na bagagem, cuidada por seus produtores, Elba leva alguns músicos do coração, que a acompanham na estrada e que ajudam a dar identidade ao seu percurso. Marcos Arcanjo, Durval Pereira e Ney Conceição, são alguns deles.

As regravações também permeiam o álbum, perfeitamente acomodadas ao conceito e às inéditas. Com inspirada introdução de cordas, escritas por Arthur Verocai, “Girassol”, sucesso do grupo Cidade Negra, assinada por Pedro Luís, Bino Farias, Toni Garrido, Lazão e Da Gama, não resiste ao reggae onde nasceu, mas sempre seguida pelas cordas, como uma rede macia conduzindo tudo. “Se Tudo Pode Acontecer”, então essa balada também roçou no reggae-Elba e ficou de novo pronta para se renovar em nossos ouvidos. Os autores são Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, João Bandeira e Paulo Tatit. A geração 90 de compositores chegou forte na voz de Elba, que usa sua verve dramática e regrava com jovens e singulares colegas, de André Abujanra, “O Mundo”. São elas, Roberta Sá, Maria Gadu e Lucy Alves. Três lindas carreiras.

“José”, do pernambucano Siba, já cantada por Elba em outros momentos, traz uma canção dos tempos do Mestre Ambrósio, banda importante do movimento manguebeat, que trouxe mais inteligência e consistência para nós todos naqueles tempos.

“Princesa do Meu Lugar”, de Belchior, também gravada por Amelinha, entre cordas e zabumba, “suinga” na voz de Elba, que convoca seus agudos mais distantes a comparecerem nos clarões da melodia, por vezes falada do mestre, que partiu não faz muito tempo. Por falar em mestres, “Além da Última Estrela”, de Dominguinhos e Fausto Nilo, traz Mestrinho na sanfona, para lá e para cá, com seu coração virtuoso, que entrega para a harpa de Cristina Braga a canção já clássica do cancioneiro nacional e ganha mais uma linda declaração de amor, na voz de Elba.

Para quem, como eu, tem o estranho hábito de seguir o roteiro de um álbum, o encerramento será com “O Fole Roncou”, de Seu Lula Luiz Gonzaga e Nelson Valença. Na faixa, a Elba roqueira pega o forró pelo pescoço, aproveitando o arranjo pop da dupla de produtores destemidos, Yuri e Tostão. Arraste o pé e bata cabeça, no som de Elba você pode tudo. Artista maior, no seu palco, no seu estúdio, na sua sala de visitas, onde tudo cabe. O que for novo, desafiador, clássico ou regional. Tudo vale, tudo vira ouro, no pó da estrada traçada por Elba Ramalho em sua carreira, que vem sendo construída sem descuido, por 40 anos. Que sorte, Brasil, a música brasileira vai te salvar!

“O Ouro do Pó da Estrada” já está disponível em todas as plataformas digitais pela gravadora Deck.

Para ouvir: https://ElbaRamalho.lnk.to/OOuroDoPoDaEstradaAlbumPR

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