Geraldo Azevedo lança “Solo Contigo”

Geraldo Azevedo lança “Solo Contigo”

A figura marcante deste cantador, sozinho no palco, vestido como um trovador moderno, empunhando seu eterno companheiro de luta (o violão), tocando e “en-cantando”, remete a um lugar no espaço-tempo no qual a areia da ampulheta não cai, o relógio deixa de marcar as horas e o calendário não faz mais sentido. É um daqueles raros momentos em que você pede licença e embarca numa viagem ao fundo do coração – algo que poucos artistas podem nos proporcionar de verdade, nos dias de hoje.

A força do cancioneiro de Geraldo Azevedo é impressionante — mas não surpreendente, para quem o acompanha. O repertório escolhido para a apresentação desta noite de 6 de setembro de 2018, no Centro Cultural João Nogueira, que ainda atende, também, pelo nome de Imperator, localizado no bairro do Méier, no Rio de Janeiro, é apenas uma das possíveis sínteses de uma obra sólida, elaborada em diversas fases de sua vida.

Adequadamente batizado de “Solo Contigo” (Deck), este projeto reapresenta alguns dos momentos mais significativos de Geraldo Azevedo, tocados no formato onde a canção nasce e onde tudo começa, no formato voz e violão, o principal eixo na feitura de sua música, elaborada nota por nota, acorde por acorde, melodia por melodia, no decorrer de seus 52 anos de carreira. Curiosamente (ou não), este é o primeiro registro produzido em vídeo, com foco total apenas neste tipo de show que o mestre faz há décadas — nele estão canções escritas ao lado de seus ilustres parceiros, ao longo dos anos, mas que poderiam ter sido compostas ontem mesmo: atemporais e universais, falam direta e intimamente com cada um de nós.

“A realização deste projeto é algo que faltava à minha obra”, confessou Geraldo a este que vos fala. E não é de hoje – muito pelo contrário – que produtores, músicos, cantores e compositores são categóricos em reiterar que uma das melhores formas de você compreender e sentir a essência de uma canção é ouvi-la em seu estágio básico, na voz e no violão somente. “É onde ela se revela plenamente”, afirmam.

A apresentação começa com uma releitura de “Príncipe Brilhante”, do álbum “For All Para Todos”, de 1982 – um acerto, sem dúvida – iniciar a comunhão com sua plateia com essa lúdica versão, acompanhada por uma caixinha de música que nos teletransporta aos tempos da infância, onde sonhos e viagens imaginárias habitavam o nosso dia a dia. É um prenúncio do que que virá pela frente.

Na sequência, o cancioneiro azevediano vai tomando conta do Centro Cultural João Nogueira, desfilando clássicos lançados em álbuns que definiram seu perfil artístico e seu sucesso – ali estão “Inclinações Musicais”, “Canta Coração”, “Dia Branco” e “Moça Bonita”, do LP de 1981 “Inclinações Musicais”; “O Princípio do Prazer”, “Chorando e Cantando” e “Dona da Minha Cabeça”, de seu primeiro trabalho independente, produzido com recursos próprios, “De Outra Maneira”, lançado em 1986. Brilham ainda neste setlist, dentre outras canções essenciais de sua obra, a belíssima parceria com Alceu Valença, “Caravana”, lançada na trilha sonora da novela “Gabriela”, em 1975, além de “O Charme das Canções”, gravada em 1984 no LP “Tempo Tempero”, feita com Capinan; “Letras Negras”, do disco “Berekekê” (1991), outra parceria com Fausto Nilo; “Bicho de 7 Cabeças II” (Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha) e, claro, “Táxi Lunar” (Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Alceu Valença), ambas do antológico álbum de 1979, “Bicho de Sete Cabeças”.

Neste mar de canções não poderiam faltar inéditas: o ator e compositor Mário Lago teve sua poesia “O Amor Antigramático” musicada por Geraldo. “A Saudade Me Traz”, de autoria do companheiro de trabalho Sergio Peres, também foi selecionada para o espetáculo. Completam ainda o time de novidades “Pensar em Você”, de Chico César; “Veja (Margarida)”, de Vital Farias; e “Estácio, Eu e Você”, faixa que abre “Pérola Negra”, o clássico álbum de 1973, numa emocionada homenagem que Geraldo Azevedo presta à Luiz Melodia.

Porém, tão importante quanto este cancioneiro, é a presença calorosa, muito à vontade, deste cantador, nascido às margens do majestoso Rio São Francisco, no enorme palco carioca. Ele se apresenta como se estivesse nos recebendo na sala de sua casa, com toda a hospitalidade típica do nordestino, onde sempre canta para amigas e amigos. E aqui cabe a pergunta: o palco é a sua casa? Ou a casa é seu palco?

“Solo Contigo” vem se somar a outros importantes registros ao vivo em voz e violão em sua discografia: os CDs “A Luz do Solo” (1985) e “Ao Vivo Comigo” (1994). A produção musical e gravação de áudio ficaram por conta de outro grande parceiro de longa data: o guitarrista e produtor Robertinho de Recife. A direção de fotografia e geral deste DVD, realizada com muita sensibilidade, é de Bernardo Mendonça.

“Solo Contigo” cumpre vários papéis. O principal, talvez, seja o de relembrar (porque nós, brasileiros, somos os campeões do esquecimento) que Geraldo pertence à geração de artesãos da canção popular brasileira, a geração nascida na década de 1940, tão presente nas nossas vidas, que produziu e produz até hoje, a maior parte do que há de mais inspirador, relevante, especial e belo dentro da música brasileira. E Geraldo Azevedo é um destes mestres.

Charles Gavin, fevereiro de 2019

>> Ouça “Solo Contigo”: https://GeraldoAzevedo.lnk.to/SoloContigoPR

>> Assista o clipe “A Saudade Me Traz”: