Google+

English

Teago Oliveira lança “Boa Sorte”

Teago Oliveira, conhecido por ser a voz da Maglore, lança nesta terça-feira, dia 17 de setembro, Boa Sorte, primeiro álbum de estúdio de sua carreira solo. O trabalho está disponível em todas os aplicativos de música com distribuição da Deck. O disco reflete um desejo antigo do compositor de poder adentrar um novo universo musical, que o permitiu experimentar outros tipos de arranjos e texturas em suas canções, diferente do que é feito em banda. O álbum, com 11 faixas inéditas, conta com Luiz Gabriel Lopes como parceiro de composição de “Bora” – escolhida para vir ao mundo acompanhada de um vídeo feito em colagem pela artista visual Jojo Hissa – e Marceleza de Castilhos, autor de “Azul Amarelo”, com quem escreveu “Últimas Notícias”.

Teago Oliveira – “Boa Sorte”
por Helio Flanders

Teago Oliveira não pede por fortuna, ele se torna sua própria felicidade em seu disco solo de estreia: “Boa Sorte” (Natural Musical/Deck). O álbum passa longe de correr qualquer risco ao alinho com a irrepreensível discografia de sua banda Maglore, dando ao ouvinte uma extensão poética de sua personalidade como quem distribui novos capítulos de sua voz para que possa de desvendá-lo com paciência à fim de não perder nenhum traço. Compositor gravado por artistas que vão de Erasmo Carlos e Gal Costa à Pitty, Teago apresenta um universo que se revela cada vez mais próprio e existencial. Produzido pelo cantor e por Leonardo Marques, registrado em Belo Horizonte, o trabalho sai pelo selo Natura Musical neste setembro de 2019.

A coesão das canções impressiona e a seguir me arrisco a agrupá-las de acordo com cheiro, cor e sentimentos.

– Um coração em fúria
ou abelhas mortas no pomar

Se em seu último álbum, junto de sua banda Maglore, Teago veste uma camisa apertada de suas próprias emoções e um coração partido, em “Boa Sorte” parece não haver mais tempo nem ao menos para que possamos descobrir se este coração está reestabelecido, pois a fúria que toma sua voz é tamanha que a pressa é seu verdadeiro guia. “Corações em Fúria (Meu Amigo Belchior)”, o primeiro single, é uma homenagem violenta e doce ao artista cearense, trazendo contornos épicos em versos como “Os tempos já mudaram / e uma guerra de repente pode estourar”. Já “Movimento das Horas” é um retrato da desilusão moderna na exausta existência: “O meu barco é o coração / à deriva em busca de ninguém / mas aprendi a gostar de mim / pra poder gostar de você”. E essas mesmas canções trazem de volta uma amarga sabedoria adulta de quem já viveu mais que seus trinta e poucos anos sugerem. Tudo que Teago canta neste capítulo é muito sério e parece ser de profunda necessidade para ele.

– Bora!
ou o apocalipse da nova ordem mundial

É perceptível em “Boa Sorte” o incômodo e a indagação de Teago com os caminhos futuros, cruzados ou não, entre as pessoas e o mundo. Talvez a mesma semente que fez nascer a inquietude de um artista como Caetano Veloso, quase oitenta anos atrás, ou o autodesaparecimento de Belchior, na última década. Mas assim como Caetano, Teago é baiano, e de palavras como “Bora!” e de sua cintura nascem ziriguiduns inexplicáveis até para a NASA e desde lá ele dribla os tempos obscuros de tecnologia e intolerância. Tampouco há lugar para autocomiseração, um dos pilares das últimas gerações. Teago pode ser a confiança em pessoa, e também seu próprio pior inimigo, mas com a complacência de velhos rivais que já não se odeiam mais. “Hoje sei que já fui ferido / e também já feri você”.

– Triste Bahia
ou o neo-existencialismo soteropolitano

A voz do cantor baiano arrombou a porta de minha casa com um sopro. Do lobo bobo ‘gilbertiano’ sobrou um barco a vela, feito do papel poético do compositor, que parece de vez por todas fincar sua marca no cancioneiro moderno brasileiro. Neste trabalho parece não haver tempo para muitos momentos coletivos, como solos de guitarras ou convenções, pois a palavra se coloca avante a qualquer outra necessidade de expressão. Se os versos de Teago, que podem soar erroneamente inofensivos ao primeiro contato por conta da leveza de seu sotaque e de seu belíssimo e adocicado timbre, revelam-se verdadeiramente pesados no caráter existencial que se apresentam: “Golpes, golpes, golpes / no que faz sentido / Essa semana foi um amigo / receio que aconteça mais”, de “Superstição”. Há também a hora de voltar os olhos para o retrato da terra primeira com a dor de um exilado Caymmi: “Antes eu não sofria / agora dói até pensamento / eu já nem sei viver / tão longe de você, Bahia”. Por fim, a resignação dá espaço à esperança de futuros encontros galácticos na ensolarada “Últimas Notícias”: “Pelé tocando violão / Gilberto Gil passando a bola / Drible na área da razão / Gol e tiro de metáfora”, num ‘mix’ entre Jorge Amado e um Jean-Paul Sartre do Rio Vermelho.

“Boa Sorte” reafirma o que eu pressentia: Teago Oliveira deseja boa sorte ao mundo de modo tão profundo que ele mesmo se torna a boa sorte. E a obra abandona o compositor para fazer seu caminho mais nobre, que é aquele de permitir que quem a encontre se aproprie dela. Depois da audição do álbum, posso dizer que a boa sorte também sou eu.

>> Ouça o álbum:
https://TeagoOliveira.lnk.to/BoaSortePR