“Coisas da Vida” por Paulo Miklos

“Coisas da Vida” por Paulo Miklos

Créditos capa: Pedro Hansen

Deixa eu te contar sobre o meu novo disco. Quero compartilhar uma playlist afetiva! Uma seleção de canções que eu reuni entre vivências durante minha história. Cada uma delas está ligada a uma memória, a uma aventura, um momento marcante. São queridas porque carregam grande poder de me trazer de volta as sensações, paixões e acontecimentos decisivos.

Quando adolescente, eu usava as fitas cassetes de estudo do meu pai para gravar do rádio as músicas que eu gostava. Depois, já eram as preferidas dos discos de casa que eu selecionava. E assim, estava criando playlists sem perceber o quanto isso dizia a meu respeito.

Toda playlist revela seu autor. As escolhas que fazemos falam mais de nós mesmos do que podemos supor. São indicativas de uma época, um pensamento, uma emoção, um sentimento.

E, para batizar o novo álbum, escolhi o título de uma das minhas músicas preferidas: “Coisas da Vida”. Com a Rita Lee, eu estive o mais próximo de ser um verdadeiro fã. Desde adolescente eu assistia aos seus shows em São Paulo e tinha um pôster dela na porta do meu armário, na casa dos meus pais.

Aconteceu com outros compositores destas canções que eu escolhi. Beto Guedes, eu assisti na praia, no Guarujá, com minha namoradinha, ainda na escola. Com a canção “Quero Voltar pra Bahia”, do Paulo Diniz, eu aprendi a tocar violão. A do Walter Franco, eu cantava na madrugada do Café Teatro A Pulga aos 18 anos.

Algumas das canções escolhidas são resultado de encontros divertidos com outros artistas. “Evidências”, considerada um hino nacional informal, escolhi por conta de um encontro com meus queridos amigos Chitãozinho e Xororó. Nos camarins de uma apresentação conjunta, eu tomei a liberdade de experimentar o chapéu do Chitão. Agora toda a vez que nos encontramos, ele diz: “Depois de colocar aquele chapéu, você nunca mais foi o mesmo!” no que ele tem toda a razão.

“Xibom Bombom” me impactou quando presenciei a apresentação de Carla Cristina em um programa “Altas Horas” que gravamos juntos. Neste mesmo dia, tive um problema de saúde, fui internado e intubado. Bem tratado, dias depois, fui extubado e voltei meio grogue cantarolando essa música! A princípio, minha filha achou que eu estivesse balbuciando qualquer coisa sem sentido, até que no sábado o programa foi ao ar e todo mundo reconheceu a canção que eu estava cantando!

Escolhi duas canções poderosas para falar da minha cidade natal. Definir São Paulo não é tarefa fácil. Gigante e multifacetada, ela é sinônimo de luta por espaço e realização, pela sobrevivência e visibilidade. “Não Existe Amor em SP” é uma joia, tensa e desesperançada. Traduz o sentimento de amor e ódio que paulistanos sempre revelam ao descrever seu pertencimento.  Outra visão sobre a resiliência histórica desse povo é “Saudosa Maloca”. Gravar Adoniran Barbosa depois de mergulhar na obra e no personagem (filmei o curta “Dá Licença de Contar” e o longa-metragem “Saudosa Maloca”, além dos diversos shows cantando suas canções, a partir de uma pesquisa profunda do seu repertório e de sua história), foi a realização de um sonho. Posso dizer que agora já falo o “adoniranês” fluentemente.

Consigo revelar a história por trás de cada uma dessas escolhas. Me entreguei a interpretar essas músicas com toda a carga emotiva que elas carregam, algo muito precioso para mim. Para valorizar ainda mais as canções, meu produtor Rafael Ramos convidou o maestro Otávio de Moraes, da Blood Audio, para assinar todos os arranjos e reger os músicos. O processo foi muito prazeroso, das escolhas de tonalidade com o maestro às sessões de gravação das bases, com grandes músicos arregimentados pelo Rafael, passando pelos sopros, cordas e percussões, cada etapa teve sua alma. Por fim, entraram os coros lindos que criamos juntos!

Decidimos também transformar o álbum visual de “Coisas da Vida” em um filme contínuo. Com direção criativa de Carol Barragana e direção de Jorge Daux, cada faixa ganhou um clipe especial. Filmamos em São Paulo, minha cidade natal, e a cidade é também um personagem desses clipes.

Agora, ouvindo o resultado de todas elas reunidas no disco, em sequência, me sinto realizado. Espero que você também se emocione, que goste da minha versão para músicas que você já conhece, e descubra canções que você nunca ouviu.

Põe pra tocar! Depois me conta.